A Mulher Ferida: self-vudu bordado e con-vivências na pedagogia têxtil
Este projeto despontou do espanto de nos ver vivas, de ver corpos de mulheres que transitam com suas coleções de marcas, com feridas latentes e também inaudíveis. Estamos vivas, mas e essas feridas? Há um corpo comum? O quanto ele pode aguentar? O que pode o corpo? Como as memórias se alojam nas nossas entranhas? São várias perguntas que revelam a urgência de abandonar o corpo-que-não-aguenta-mais para habitar um corpo lúcido, um corpo presente. O revelar dessas corporalidades exige que a matéria desate de si, exige um deslocamento de perspectivas e, para tal, é necessário desacelerar, escutar, acolher, compartilhar, o que torna o ato artístico do bordar uma ferramenta vital para essa experiência. Bordar, em si, é um ato lento, é um ir e vir de movimentos repetitivos que proporcionam um espaço-tempo de meditação e presença.

Quando realizado em grupo, esses efeitos ganham proporções ainda mais potentes. Espontaneamente é gerado um ambiente de acolhimento e escuta amplamente generoso e, principalmente, seguro. A Mulher Ferida é uma vivência-oficina onde utilizo o bordado e processos pedagógicos feministas a fim de gerar espaços de acolhida e fortalecimento entre mulheres de diferentes origens e idades, e que já pôde ser realizada em diversas regiões do Brasil. Para este relato de experiência, trago um pouco do caminho que atravessamos até chegar no formato atual da vivência e também sobre o processo de investigação artística transdisciplinar e histórica que acompanha a iniciativa.
O encontro com as figuras medievais
Esta pesquisa artística nasceu há alguns anos atrás, arredor de 2018, a partir do meu encontro com a figura medieval “The Wounded Man” (O Homem Ferido). Reproduzida durante a Idade Média em manuscritos de medicina europeus, especialmente nos séculos XIV e XV, a figura representava um desenho anatômico com os possíveis ferimentos que um homem poderia sofrer durante batalhas, acidentes ou através de pragas, mas que pudesse suportar, mantendo-se vivo. O diagrama sinalizava de maneira ilustrativa os diversos ferimentos acompanhados de textos numerados e explicativos dos procedimentos que deveriam ser tomados para o tratamento e cura.
O estilo gráfico da figura foi sendo adaptado em cada representação ao longo dos anos, em diálogo com as mudanças dos estilos da arte produzida na região da Europa e com o avanço da medicina ocidental. Como as mulheres não participavam de batalhas e o conhecimento sobre seus corpos era empírico e ancestral, e ainda não estava prioritariamente sob propriedade da hegemonia político-religiosa do patriarcado, não localizei indícios de que existisse um diagrama equivalente para a figura feminina, sendo a “Disease Woman” (A Mulher Doente) a imagem que mais se aproxima. Nesses diagramas de meados do século XV se vê a figura de uma mulher de véu e gestante, numa representação distorcida dos órgãos reprodutivos femininos, expondo uma visão limitada e aristotélica clássica do corpo feminino percebido como biologicamente inferior, intrinsecamente fraco e predisposto à doença.
Nesse primeiro momento da pesquisa, com o aprofundamento simbólico em relação a essas duas figuras medievais e o reconhecimento da importância histórica desses diagramas, eu tinha a curiosidade de compreender se seria possível criar uma releitura desse diagrama, com os corpos e violências do hoje. A intenção inicial era gerar uma versão contemporânea que comportasse feridas unicamente acumuladas pela condição de habitar um corpo feminino, que é atingido por violências em diferentes escalas, cotidianas e diversas, em níveis sutis e visíveis, além de buscar identificar possíveis desvios e/ou curas para essas feridas.
Um corpo ferido em constante batalha sob opressão patriarcal de classe e raça, que se afasta da autoconsciência, involuntariamente submetendo-se ao controle externo, mas que ainda assim mantém-se vivo. Através de estudos da simbologia corporal em diferentes culturas e da troca de experiências, essas inteligências tomariam uma forma potente e viva, reunindo e catalogando testemunhos e combinando-os com meu repertório pessoal e técnico têxtil para a criação de um arquétipo-corpo-comum.
Do espanto à oficina: surgimento da vivência
Para a imersão nesse arquétipo, identifiquei a necessidade de dialogar com outras mulheres, a fim de somar suas experiências às minhas, como uma espécie de catalogação de feridas-comuns e seus possíveis tratamentos/curas. Foi nesse contexto que surgiu a primeira versão da oficina de bonecas bordadas, intitulada então como A Mulher Ferida – Self-Vudu Bordado. Nesse formato de oficina, de 3 a 4 dias, trabalhamos a linha da vida de cada participante e elaboramos bonecas de si bordadas com pontos básicos de bordado livre. Era então um espaço onde eu poderia de maneira indireta, e às vezes subjetiva, — ao propor um espaço de diálogo e através do trabalho manual do bordado, — acessar as feridas e histórias dessas mulheres, evidentemente com o consentimento de todas as participantes, estando informadas do que se tratava a proposta da oficina e da pesquisa. Porém, o que aconteceu, desde a primeira experiência compartilhada, foi a geração de um ambiente seguro e generoso genuinamente proposto e instalado pelas mulheres participantes.
Os encontros eram visivelmente acolhedores e capazes de gerar um espaço de escuta que, para muitas, ainda é pouco comum. Foi daí que percebendo a potência desses espaços, e acomodando as intenções e desafios, que a vivência foi se transformando prioritariamente em um dispositivo de geração de espaços de acolhida e fortalecimento para as mulheres participantes. Aqui é importante compartilhar que nesse momento eu formava parte do grupo de estudos G>E – grupo maior que eu, mediado pela artista, escritora e educadora Karlla Girotto.
Os primeiros esboços do projeto e relato das primeiras experiências aconteceram nesse grupo, que estava ainda sediado na Casa do Povo, em São Paulo. Os questionamentos, inquietações e desafios eram compartilhados e acompanhados entre um grupo diverso de artistas e foi nesse espaço que pude compreender que A Mulher Ferida se mostrava principalmente como um meio, uma metodologia, um processo criativo, mais para além do que uma materialização artística limitada à elaboração de peças de arte. Foi nesse percurso, a partir da experiência única de cada vivência com grupos diversos de mulheres, que pouco a pouco fui desapegando de algumas primeiras intenções artísticas e fui acolhendo o que de mais valioso nos ofereciam os encontros.
Metodologia e caminhos pedagógicos feministas
Alguns dos principais motores conceituais da pesquisa partiram de inquietações e desafios, como o debate de gênero e a pedagogia feminista. Embora houvesse o desejo de gerar uma releitura coletiva e colaborativa dessa Mulher Ferida, havia também o inquietamento em relação ao debate de gênero, no que diz respeito à identidade e no que poderíamos compreender (e ilustrar) como um corpo feminino, uma fórmula mulher. Esse desconforto me acompanhou durante todos esses anos e foi um dos pilares para a desistência de ilustrar bidimensionalmente alguma forma de corpo ou contorno, além de um dos motores para meu aprofundamento nas teorias feministas afrolatinoamericanas.
Esse desabrochar do projeto enquanto dispositivo artístico teve acompanhamentos que considero substanciais para o aprimoramento da metodologia, que foi a minha breve participação como colaboradora da Universidade Livre Feminista, ao lado de mulheres e feministas que são referência na minha trajetória, e meus diálogos com Sophia Branco, amiga, socióloga e militante experiente na elaboração, implementação e avaliação de processos pedagógicos feministas e populares. Junto à Sophia pude debater, expandir e aprimorar os processos considerando a diversidade das mulheres, suas identificações raciais, suas posições de classe, suas idades, níveis de escolaridade e pertencimento a distintos territórios e origens.

“Eu demorei a entender que eu podia ser feliz, mesmo minha mãe não o sendo”. Essa foi uma das falas de uma participante idosa na vivência realizada em São Paulo, em 2019.
Falas como essas são frequentemente compartilhadas nos encontros, exemplificando dores que filhas herdam de suas mães, mas nos ilustra também um nível refinado e simbólico de muitas outras camadas de violências institucionalizadas e imposições de gênero.
A importância de dar espaço a essas falas e tantas outras é um dos fatores que mais retroalimentam a pesquisa. Há muito para ser dito e compreendido. Por medo, vergonha ou por não aceitação, muitas mulheres sentem, num primeiro momento, o receio de compartilhar alguns depoimentos, mas à medida que outras companheiras o fazem, há um certo espelhamento e identificação, o que torna o ambiente acolhedor, estimulante e fértil. Uma vez que elas começam, o desejo é lançar mais as suas vozes. A dor é legítima e deve ser anunciada.
Isso nos leva a outro desafio que gerou bastante movimento que foi o fato de que apesar de sermos capazes de gerar espaços seguros, quando entramos em temas sutis da linha da vida de cada participante, também ativamos a memória do corpo e precisava me comprometer em não gerar um espaço desfavorável de gatilhos para nós, nem abrir o campo sensível do corpo num nível extremo de somatização das dores mais silenciosas de cada uma.
Nas experiências pude perceber que mulheres com idade mais avançada compreendiam um acúmulo enorme de experiências negativas e que a maioria nunca tinha tido acesso a um acompanhamento terapêutico ou psicológico ao longo de suas vidas, o que as tornava mais vulneráveis ao processo. Então precisava estar comprometida em estimular a criação de um dispositivo que pudesse ressoar a longo prazo, mas que não estivesse focado nas dores e sim na força que cada mulher carrega apesar de suas mais obscuras experiências. Também tinha que levar em consideração que a oficina não partia de uma proposta dentro da arteterapia, pois não tinha passado por processos formativos nesse sentido anteriormente.
Foi então que, a fim de emendar essa greta, busquei apoio a profissionais especializados, em destaque trago a contribuição de Olívia Françoso, com aportações da psicologia com experiências em atendimento ao público feminino e periférico, a Cyro Morais com os processos de consciência corporal desde a dança e o teatro e a contribuição de Olga Torres, com exercícios de respiração e alongamento, desde sua prática como professora de yoga.
Foi assim que, ao longo desses anos, pude contar com a generosidade de diversos amigos e profissionais de várias áreas que contribuíram imensuravelmente para o fortalecimento da metodologia, do corpo teórico e conceitual e do potencial artístico da vivência. Algumas oficinas ocorreram por força maior, de maneira independente, e outras foram incentivadas por organizações feministas e/ou educativas que contribuíram para suas realizações, como o Sesc São Paulo, a USP – Universidade de São Paulo e o SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia. Hoje, oficinas têm sido ofertadas principalmente em formato gratuito para as mulheres e a metodologia vem sendo aperfeiçoada e adaptada para cada contexto onde as participantes estão inseridas, considerando raça, escolaridade, faixa etária, classe econômica, entre outros fatores determinantes.
Con-vivência no Quilombo Águas Claras
Uma das mais recentes e completas ativações da oficina foi realizada em 2022, na zona rural da cidade onde vivi ao final da pandemia do Covid-19, no Quilombo Águas Claras, localizado em Triunfo, município que contabiliza pouco mais de 15 mil habitantes, somando região central e zona rural e dista 405 quilômetros de Recife, capital do meu estado natal.
O quilombo é território de resistência da população negra do sertão do estado de Pernambuco e há relatos de moradores da região que datam de 1850, mas foi apenas em 2008 que a comunidade de Águas Claras foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares.
O grupo dessas 12 mulheres quilombolas participantes constitui a experiência mais completa que acredito ter experimentado nesses anos. Os encontros aconteceram no espaço comunitário que está dedicado à formação e disseminação da cultura no território e na Associação dos moradores do Quilombo Águas Claras e contou com o apoio da Prefeitura de Triunfo para o transporte e do SOS Corpo, para a compra dos materiais e alimentação do grupo.
Aqui acho valioso aclarar e enumerar as etapas e decisões tomadas para essa vivência em específico, destacando desafios e resultados importantes:
Definição do grupo: com a articulação de Bruna Florie, artista e gestora cultural do município de Triunfo, conseguimos organizar uma oficina com um grupo de mulheres da comunidade de Águas Claras que já estavam organizadas para eventos e formações em outros momentos. A proposta foi apresentada e aceita anteriormente ao início dos encontros. O grupo teve como faixa etária um intervalo de mulheres entre 19 e +60 anos.
Datas e horários: considerando que o grupo de mulheres estava conformado por trabalhadoras rurais, mães e responsáveis pelo trabalho doméstico, acordamos que os encontros seriam uma vez por semana, pela manhã, no horário em que as crianças e jovens estariam na escola, facilitando a assiduidade das participantes sem interferir diretamente nos compromissos de cada uma. Encontros de 3h de duração, com intervalo para compartilhar um café e lanches.
Zine-processo: como material de apoio e documentação de processo, eu elaboro para cada oficina um zine onde apresento a pesquisa, com textos e informações de apoio e imagens. O pequeno caderno conta com páginas para trabalhar a linha da vida, apontar comentários livres e registrar os métodos dos pontos de bordado livre ensinados. O caderno é de uso individual e ao final de cada vivência é de propriedade de cada participante, assim como as bonecas bordadas produzidas.Trabalho corporal: ao início e ao final de cada encontro, dedicamos 15 minutos para um alongamento do corpo. O primeiro momento nos ajuda a sintonizar com as demais companheiras, a criar presença no ambiente, marcando o início da atividade, além de alongar para que o trabalho manual seja mais fluido. O exercício corporal ao final dos encontros é para marcar o fim da atividade, como um momento de acolhida, agradecimento e cuidado do corpo para que as atividades realizadas na oficina sejam expandidas de modo positivo a longo prazo. É um espaço para fortalecer a consciência corporal e estimular o autocuidado. Aqui a maioria das mulheres do grupo não estava acostumada a nenhum tipo de exercício de respiração ou alongamento e todas se dispuseram com entusiasmo a repeti-los a cada encontro.
Registro da oficina realizada com um grupo de mulheres da Comunidade Remanescente Quilombola Águas Claras, em Triunfo. Ao fundo vê-se os esboços das bonecas ilustrados em colagem. Pernambuco, Brasil, 2022. Acervo pessoal da artista.
Vivência – Construção da Linha da Vida: a oficina iniciou com o desenvolvimento (oral ou escrito) da linha da vida das mulheres estimulando uma redescoberta espontânea das vivências mais sutis e mais subjetivas. Aqui as participantes são estimuladas a pensar em pontos importantes e marcantes das suas vidas, sejam eles positivos ou negativos. Existem dois caminhos de estímulo: 1. pensar a cronologia a cada 5 ou 10 anos da vida e 2. relembrar episódios de cada casa por onde já viveram. Após a escrita da linha da vida, passamos para o compartilhamento oral dessas histórias em uma roda de conversa. Para as participantes que não escrevem, foi oferecido um suporte e acompanhamento na escrita e compartilhamento com as demais companheiras. É nesse momento onde se começa a criar laços de confiança, identificação, espaço de escuta e fala e a geração de uma atmosfera segura e particular a cada encontro. Nessa vivência foram relatados com frequência em suas linhas da vida o gosto pelo trabalho na roça (o cultivo do café, do milho, do feijão, etc), o nascimento dos filhos e a conquista da carteira de habilitação para dirigir motocicletas (que é o meio de transporte mais comum na região, considerando os trajetos íngremes em estradas de terra).
Vivência – Esboços das bonecas: para a elaboração dos esboços, através das anteriores oficinas, compreendi que o desenho como técnica não nos facilitava o processo. A pouca proximidade que algumas mulheres têm com o desenho as deixavam tímidas em relação aos seus traços e habilidades, travando essa etapa de criação, que não está focada na elaboração de esboços com desenhos tecnicamente proporcionais. O desenho foi substituído pela colagem nessa etapa, e são disponibilizadas revistas e livros para recorte. Os esboços das bonecas são elaborados transformando a linha da vida em imagem através de recorte e colagem sobre uma silhueta. Aqui todas trabalharam com uma folha de papel tamanho cartolina. Elementos que apareceram com frequência nos esboços: plantas, animais, filhos, amor, luz, terra e movimento.
Vivência – Transferência do esboço para o tecido: a partir dos esboços e das linhas das vidas eu crio e reúno uma série de pequenos desenhos que possam ilustrar os fatos e sentimentos compartilhados por elas, considerando formas que sejam de simples transferência para bordados e sem muita complexidade para quem não tem familiaridade com desenhos, costura e bordado. Disponibilizo também uma diversidade de formas de bonecas para que escolham com qual trabalhar e qual se identificam mais. Passamos o desenho do contorno da boneca para o tecido, que aqui foi o feltro branco para facilitar o trabalho para as mulheres com baixa visão e por ser um material que resiste às temporadas de muita neblina e umidade comuns na região.
Fizemos o exercício de dispor os elementos sobre as partes das bonecas e transferimos os desenhos para o tecido. Nessa ocasião também disponibilizei alguns símbolos do movimento da luta feminista, como o punho cerrado, e algumas decidiram incluir em seus esboços.
Vivência – Apresentação dos pontos básicos de bordado e elaboração das bonecas: a cada encontro apresentei avanços da técnica do bordado, com uma pequena variedade de pontos de execução simples. As mulheres exercitam os tipos de pontos à medida que aplicamos aos desenhos marcados no tecido da boneca. Aqui avaliamos juntas qual ponto aplicar para cada desenho, considerando tipo de contornos, as formas dos rabiscos e os pontos que elas preferem. À medida que vão aprendendo os pontos vão construindo suas bonecas e rememorando as linhas da vida. Os encontros seguintes são de aprimoramento e finalização dos bordados. As mulheres também podem somar costurando nas bonecas outros materiais como tecidos estampados, botões, viés, crochês, etc.

Vivência – Finalização das bonecas: como etapa final, temos um momento para encher e costurar, deixando-a com volume. Por fim, cada participante é livre para apresentar sua boneca.
Encerramento e documentação: como material de documentação e avaliação, nos dois últimos encontros tomo um tempo com cada participante para preencher um pequeno formulário onde possam compartilhar sua experiência, suas observações sobre a metodologia, os pontos positivos, as dificuldades. Os formulários me ajudam a adaptar cada etapa considerando a particularidade de cada grupo e as experiências anteriores relatadas pelas próprias participantes.
Entre memória e presença
A Mulher Ferida é uma composição lúdica (lúcida) que estimula uma trama dos simbolismos e corporalidades de gênero, dos saberes vivos, das memórias vividas, compartilhadas e as herdadas, das conversas genuinamente políticas, das realidades territoriais e de todo o universo generoso que surge através do encontro com outras mulheres. Um dispositivo artístico que converge arte têxtil contemporânea, educação popular feminista, fortalecimento da tradição do bordado e documentação histórica colaborativa pela perspectiva das mulheres.
O resultado positivo das vivências já realizadas mostrou que há uma predisposição a esse exercício, e, também, se apropriando da tradição do bordado como atividade prioritariamente feminina, temos um terreno muito fértil para o acolhimento e o fortalecimento das participantes e da tradição cultural do têxtil.
É comum que as mulheres se mostrem muito orgulhosas de suas linhas da vida, de seus trabalhos, felizes de terem atravessado o processo, de verem a materialização do bordado e que se relacionem com carinho com suas bonecas. O que fica, ainda, é o fortalecimento enquanto comunidade.
A pesquisa segue caminhando pela condição do corpo feminino como resistência periférica e da opressão patriarcal na memória desses corpos, mas, principalmente, articulando o encontro entre mulheres, fortalecendo as memórias que as sustentam e cada detalhe das trajetórias que as trouxeram até o hoje. Entendendo a vida como fenômeno não estático, de permanente transformação, essas experiências valiosas são matéria de análise iconográfica e iconológica para estudo social, gerando um testemunho de questões individuais e coletivas para o registro da história vista numa perspectiva feminista. Por fim, que bom te ver viva.
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