Dobra-duros: Objetos de Apredizagem Poética
Resumo
Neste escrito, proponho uma investigação sobre a instalação interativa Dobra-duros (2023–2025), composta por um conjunto de 20 objetos feitos de madeira de reaproveitamento e dobradiças. Aqui, os Dobra-duros são entendidos como Objetos de Aprendizagem Poética (OAP), configurando um espaço de interação coletiva que media encontros entre visitantes e os saberes próprios da experiência artístico-pedagógica.

Brinquedo no Nordeste Ancestral
O Nordeste brasileiro é uma das regiões mais empobrecidas do hemisfério ocidental, marcada pela herança dos latifúndios açucareiros que desmataram sua úmida faixa litorânea transformando a maior parte da sua extensão territorial em savanas. Nesse processo, muitas famílias foram obrigadas a se deslocar pelo território em movimento de êxodo, o que culminou na marginalização de grande parte da sociedade, enquanto a concentração de riquezas se restringiu à uma pequena elite proletária (Galeano, 1978).
Minha família parte desse primeiro contexto e, pela condição econômica em que viviam, era remota a possibilidade de adquirir brinquedos, o que demandava às crianças a invenção de outras formas de brincar. Dessa maneira, era comum que as crianças criassem seus próprios brinquedos com materiais coletados na rua; se viravam com o que dava, imaginavam com o que tinham.
As brincadeiras no Brasil, diante da precarização à qual nosso território foi imposto, mudam de conotação a depender da terra em que se pisa. No interior do Nordeste, a brincadeira é um tempo suspenso, em que a cabeça se volta aos descartes da rua: às latas de refrigerante que eram carrinhos, aos troncos de madeira que eram gangorra, à tampa de garrafa equilibrada no canudo, ao estilingue com galho que bifurca, ao carrinho de rolimã com chapa de madeira.
A pesquisa poética que tenho realizado há alguns anos resgata essa sabedoria familiar de um olhar imaginativo capaz de reinventar os descartes da rua. Nesse gesto, os excessos de uma sociedade do consumo se transformam em matéria-prima para a criatividade do brincar. As materialidades recolhidas no espaço urbano e incorporadas ao ateliê passam, então, a revelar e agir sobre as micropolíticas que atravessam seus contextos de origem.
Objetos de Aprendizagem Poética
Entendo os Dobra-duros como Objetos de Aprendizagem Poética (OAPs), explicados por Tatiana Fernández (2015) como materiais mediadores de encontros, conhecimentos e brincadeiras. Os OAPs são artefatos em constante transformação e que agem sobre territórios de subjetivação por provocar outras formas de pensar e agenciar novos conhecimentos. Dessa forma, o ato poético presente na construção desses objetos articula-se sobre a experiência estética e pedagógica.
As potencialidades dos OAPs estão no fato dos mesmos destacarem “o artefato (objeto e evento), os participantes, o processo e o resultado da aprendizagem em um novo espaço de coincidências, hibridações, contágios e contaminações que mudam as formas de conhecer” (Fernández, T. 2015, p. 3490). Desse modo, o OAP transforma o objeto de arte na própria experiência sensível, artística e pedagógica, onde a percepção imaginativa se alerta a novas possibilidades e alternativas em um plano real e imaginário (Colmenárez, A. 2022).
Portanto, crio espaços de participação em que, por meio da brincadeira com os objetos interativos, a arte e a pedagogia diluem suas fronteiras. Um espaço educativo e artístico deslocados de seus espaços tradicionais e sem paredes; uma área de expansão coletiva que aproxima a educação às questões políticas e estéticas contemporâneas da vida (Braceli, 2022). Pela arte, a educação dá espaço ao encontro sensível e, nessa região de afetos, acontecem microrrevoluções diante da possibilidade de despertar processos sociais emancipatórios.
As trocas que ocorrem dentro de espaços participativos geram distanciamentos e aproximações com outros por simples operações de comparação, contribuindo para expandir a noção dele e a de si próprio, assim como daquilo que se pode vir a ser. Esses lugares estimulam a percepção sensorial por meio da participação, criando tensões entre sensações e significados enquanto promovem a integração coletiva, conduzindo o sujeito a um lugar de criatividade profunda (Colmenárez, A. 2022).
A pesquisa com os Objetos de Aprendizagem Poética mediam encontros entre coletivos com potencialidades para gerar novos conhecimentos e diferentes compreensões de si e de outros. Diante disso, procura-se expandir as noções entre a pedagogia e a arte na tentativa ampliar esses campos para além das paredes de seus espaços tradicionais, como o museu e a escola, em direção a um espaço múltiplo que se relacione com as questões contemporâneas da vida.
Dobra-duros
Iniciei a produção da instalação interativa intitulada Dobra-duros em 2023 enquanto estava fazendo a Residência Fonte¹, que propõe a estadia de um mês para produção e pesquisa na cidade de São Paulo. Neste período, produzi cinco Dobra-duros e me vi imersa nesse processo até o ano de 2025, finalizando a instalação com vinte objetos.
Cada um dos objetos interativos são construídos a partir de paletes coletados em espaços de construção civil e caçambas de lixo espalhadas pela cidade. Após coletá-los, transporto os estrados para a marcenaria, realizo as marcações de gabaritos para infringir cortes verticais e horizontais com a serra tico tico. Nessas fissuras encaixo dobradiças que unem as partes de cada um dos paletes, fixando-as com a parafusadeira.
As articulações geradas pelas dobradiças criam uma organicidade no corpo do objeto, em que o movimento de cada parte influencia no todo, propondo um cinetismo interdependente da matéria com os próprios visitantes que estão interagindo. A obra torna-se um objeto mediador de encontros e favorece a articulação de um espaço de colaboração para trocas coletivas potencializadoras de novos agenciamentos.




Utilizo o palete para criação dos Dobra-duros por serem objetos descartados que sugerem questões acerca do território da América Latina; sobre as cidades, sociedades, histórias e formas de organização. Os paletes são materialidades urbanas reveladoras de padrões de medidas que se repetem dentro das construções civis a partir de uma urbanização que visa a monopolização social. Os prédios, casas e estruturas da cidade possuem bases e um raciocínio estrutural repetitivo, criando um horizonte urbano padronizado.
A uniformidade encontrada na composição funcional e visual dos estrados é usada para simbolizar a padronização dos comportamentos sociais em massa, que unificam-se diante de determinadas situações. Há códigos e maneiras de se portar em cada ambiente urbano; um shopping, por exemplo, demanda certa conduta que se torna semelhante entre os indivíduos de uma sociedade, formando uma rigidez comportamental que nega qualquer desvio. Dessa forma, as dobradiças colaboram para diversificar essa unidade estrutural do palete, uma vez que cada peça torna-se única e moldável, além disso, as mesmas acentuam a inutilidade dessa matéria ao mercado, dissolvendo-a nas mãos de quem a ergueu.
A partir do conjunto de OAP’s, formam-se os espaços de participação onde agenciam-se os campos da arte e da pedagogia. Os conhecimentos críticos que são intrínsecos às materialidades coletadas na rua e as relações de poder de seus respectivos contextos, atêm-se aos conhecimentos estéticos dos artefatos artísticos. Dessa forma, os espaços de participação têm a potencialidade de agenciar o real, o cotidiano e a imaginação ao incentivar a percepção à intersubjetividade ativa e crítica que traz alternativas criativas às respectivas condições da vida dos sujeitos envolvidos. Nessa prática, o pensamento e a ação se encontram e criam no indivíduo experiências de autoconhecimento e de relação intersubjetiva com outros, possibilitando a noção de alteridade (Colmenárez, A. 2022).
Os espaços em que a arte e a pedagogia atuam de forma colaborativa, expandem o ensino aprendizagem para realidades sociais diversas e passam a atuar pontualmente sobre os respectivos contextos a partir de uma postura crítica. Cria-se espaços de ação social em que a arte atua como campo múltiplo de aprendizagens interdisciplinares e a obra de arte torna-se um meio de ensino radical para construir conhecimentos, substituindo o objeto pela experiência sensível em si (Cervetto, 2022).
Por fim, a pesquisa Dobra-duros propõe incitar faculdades e percepções amortecidas pelo automatismo social condicionados às atividades cotidianas e à tradicionalidade que monopoliza os corpos e espaços. Portanto, a reciclagem de materiais descartados e o seu agenciamento em OAP’s, transformam a obra de arte em uma experiência artístico pedagógica que estimula todas as capacidades sensoriais; tensionando as sensações, percepções e significados.
Referências
Campbell, B. (2018). Arte para uma cidade sensível: Arte como gatilho sensível para novos imaginários (Tese de Doutorado em Artes Visuais). Universidade de São Paulo.
Cervetto, R. (2022). El arte como forma de conocimiento: procesos de participación y reflexión activa en las obras de Lea Lublin y Cecilia Vicuña.
Colmenárez, A. (2022). Learning from the outside.
Fernandéz Mendéz, M. del R. T. (2015). O evento artístico como pedagogia (Tese de Doutorado em Artes: Educação em Artes Visuais, PPGArte). Universidade de Brasília.
Foucault, M. (1992). Microfísica do poder (10. ed.). Graal.
Galeano, E. (1987). As veias abertas da América Latina (25ª ed.). Paz e Terra.
Garrido, N. (2022). Carlos Cruz Diez: a educação como sistema de liberdade. Recuperado de Education as a System of Freedom: Nelson Garrido on CARLOS Cruz-Diez (laescuela.art).
Nino, A. (2022). La educación como desvío de formas coloniales de habitar el mundo. Recuperado de La educación como desvío de formas coloniales de habitar el mundo, por Aldones Nino (laescuela.art).
Rancière, J. (2005). A partilha do sensível: Estética e política. Exo; Ed. 34.