Janaú
1. da outra margem do rio. parece estranho olhar daqui e me ver aí, depois desta margem em outro tempo – que não é passado, futuro ou presente. daqui, me vejo espelho e encontro meus ancestrais. refazemos ritos, imagens e encantos. também chamam isso de literatura de ficção;
2. ruínas. um amigo nahua me lembrou que as mãos que construíram as catedrais mexicanas no lugar dos templos foram as mesmas que encantaram as pedras da sua construção. agora quando as vejo, escuto os templos e suas canções;
3. a memória é a boca da alma. não se apaga o que sobrevive no sonho, no espírito, nas línguas minerais e num corpo que dança.
a memória não desaparece mas pode adormecer e no limite ficar em coma. a colonização nos confundiu. não se apaga memória, ela sempre subsiste em algum lugar;
4. a desculpa da arte. quando me deparo com as incongruências sociais e seus vértices afiados dou a desculpa que sou artista.
passei assim muito tempo criando personagens que coubessem nas salas de aula, em mesas de reuniões, em planilhas de excel,
e em todos eles, a artista pedia a palavra, depois voltava correndo para a concha. quando não precisar mais dessa desculpa, eu talvez deixe de ser artista e passe a ser um lobo ou uma pedra;
5. um corpo que goza é também uma baleia pedindo descanso. ela então abandona seus pulmões e se coloca na terra fundando uma montanha. um vulcão é uma baleia que goza e depois passa muito tempo adormecida;
6. a colonialidade é um acidente geográfico na memória coletiva. podemos chamar este cânion gigantesco que se abriu entre nós de qualquer coisa, mas nas suas cicatrizes que rompem a terra, deixar passar um rio, preenchê-lo de um líquido viscoso que brilha e conta histórias. talvez possamos chamá-lo de niñito e embalá-lo como quem se deita na rede para dar de mamar;
7. se eu posso sonhar que falo outras línguas, se posso voar ou disfarçar qualquer limite de uma espécie humana, seria isso
reflorestar o inconsciente?
8. abiayala é um aperto de mão de dois caboclos com as línguascortadas e ainda assim, eles cantam;
9. são poucos os homens em que ainda creio, os deuses são muitos. Quetzalcoatl comendo maíz, Tupã bebendo açaí;
10. o português e o espanhol se parecem nas vogais apagadas de abiayala. sísmico colonial;
11. diálogos minerais. sussurro para as pedras as histórias que não quero que morram, elas guardam meus sonhos para quando eu
retornar;
12. os cetáceos e as pedras são a minha religião, seu dogma, pele e carapaça;
13. ou você vai dizer que não se lembra?
Notas
- Não se engane, esta não é uma nota de rodapé e sim de igarapé. Aqui faço uma introdução de um texto que é composto de algumas notas que funcionam como citações, lembretes, imagens. Igarapé é como os habitantes da região norte do Brasil, na Amazônia, chamam pequenos cursos d’águas onde transitam com canoas e pequenas embarcações. É de lá minha origem materna e portanto, esses rios sou eu também. A intenção aqui é brincar com os referenciais, as hierarquias textuais, com a outra margem do rio e quem sabe, convidar você que me lê, a deslocar os sentidos, afinal, um norte também pode ser sul – e vice-versa. O mais importante aqui é o que está entre. Afinal, nós terceiromundistas, não seríamos justamente essa fissura, o que resiste entre? Portanto, estendi este rio, este igarapé, daqui ao México para que as nossas águas se encontrem.
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