Produzir à Margem
Fotografía. Débora Passos / Ginófitas Aquarela
Ocorre que Bença também me impeliu a escrever, tanto para compensar as poucas palavras ditas na palestra (puro nervosismo), tanto para que do bom ponto de parada, e da escuta do que foi dito na ocasião, nasça uma reflexão sobre meu trabalho de artista e sobre minha própria vida, alinhavada pelo mote Produzir à Margem. Constato que certa parte do que experimentei até agora como vida, me foi informado por vozes externas que se tratam de vivências que se situam “à margem”.
E porque acredito que quase nada é por acaso, peço licença para compartilhar alguns aspectos mais biográficos aqui, trilhando direção distinta à essa informação, e valendo-me dessas experiências como esteio do meu fazer artístico e de minha existência.
(esses relatos são frestas no sentido dado por quem nomeia os lugares e as presenças como (à) margem, desde o seu ser autocentrado)
Buscar as margens do meu viver e do meu fazer me reconduziu à primeira infância, à primeira casa e a uma frase no livro Brinquedos do Chão, do maranhense Gandhy Piorski: “Os brinquedos feitos de flora refletem a vida delicada de frutos e pétalas. Já a flora, feita brinquedo e transmutada no imaginar, refrata na alma o vasto campo da beleza” (2016, p.73).
A primeira casa na qual morei ficava em um conjunto habitacional, longe do centro, à margem do rio Poti, em Teresina, no Piauí, minha terra natal. O bairro se chama Mocambinho. Mocambo pode ser cabana que acolhe boiadeiro ou agricultor em momento de descanso ou que abriga pessoa escravizada em fuga, e portanto também em recomeço de vida. Pode ser também, em um sentido mais amplo, um conjunto dessas habitações. Uma semente de quilombo. No meio da gentrificação dos anos 1980 em Teresina, minha família conseguiu ser sorteada para morar em uma das muitas casinhas brancas perto da margem do rio. Recordo-me de sinais do “progresso” em passeios quase diários na beira do Poti: montanhas de areia retiradas do rio que, antes de serem sepultadas sob asfalto, saneamento lento e urbanização, serviram para brincar, subir e ser paisagem de retratos da minha família. Retratos do lazer possível. Lembro de avistar também, nisso que eu chamava “passear na natureza”, algumas vacas pastando, um pequeno bananal, carnaúbas, e formas de vida vegetal que só mais tarde aprendi que são um belo encontro entre a caatinga, o cerrado, a mata seca (ecos da mata atlântica) e a mata dos cocais. Agora sei que ali havia muitas camadas de história do Piauí.
As atividades principais desses passeios, para mim, eram perscrutar o ambiente e olhar nele o máximo possível; e também, sob a orientação dos meus irmãos mais velhos, coletar ramos, sementes e flores para eventualmente compor buquês e oferecê-los à nossa mãe. Esse brincar, felizmente, brota pelas frestas do concreto da minha vida adulta pelas vias do fazer artístico, apesar da condição ocidentalizada de que adultos não interagem ludicamente com o mundo ao seu redor — apenas intelectualmente.
Apesar do Mocambinho ter nascido como um bom exemplo de segregação socioespacial, foi lá que tive um contato com a natureza que hoje em dia considero privilegiado. E reconheço que esse contato, hoje em dia, é fundamental para o meu trabalho como artista visual, porque ali aconteceram as primeiras lições do olhar atento, no eco da colonização, no limiar da cidade, na beira do rio.
O bacharelado na Universidade de Brasília, entre muitas experiências, me situou em outras margens. Morar em Ceilândia, e depois no que veio a se tornar o Sol Nascente, acordar muito cedo, chegar na universidade através de três transportes públicos em duas horas de viagem e conciliar estudo e trabalho traz à mente com muita nitidez a percepção dessas margens. Toda a vida escolar em escolas públicas não me preparou completamente para o rojão do ensino superior; eu senti esse impacto na urgência de estudar em livros escritos em outros idiomas, por exemplo. No entanto e mais uma vez, estar à margem me trouxe desafios e vantagens: ser nordestina, enquadrada no que o IBGE denomina “parda”, filha da classe trabalhadora de baixa escolaridade e tornar-se membro da primeira geração da família a ingressar no ensino superior em universidade pública pelo sistema de cotas para estudar artes plásticas é um ponto a se considerar em qualquer história de vida, seja pela duvidosa ideia de excepcionalidade ou pela igualmente questionável ideia de superação pessoal. Escrevo isso com o desejo profundo de que essa revolução individual aconteça para cada vez mais pessoas neste país.
Olhar Brasília através de todas essas camadas de “marginalidade” é vantajoso para detectar coisas que escapam do plano: os parquinhos vazios, as pessoas no metrô, as solidões na multidão da Rodoviária do Plano Piloto, o apequenamento diante da escala monumental, as contradições do modernismo. Tudo isso reverberou no meu trabalho de artista, mesmo antes de me formar, e mesmo antes de perder o medo de assinar minhas obras e me declarar artista (estar situada nas várias margens nada plácidas faz você duvidar um pouco do seu lugar quando ele não é associado aos seus lugares de origem, dentro de uma lógica capitalista, mesmo que ele tenha sido conquistado com muita luta e você saiba na carne — e na carne dos seus mais velhos — o quanto ele custou).
Então, transformar tudo isso em insumo para a arte, combinado com um pouco de amadurecimento pela vida em geral e um pouco de terapia, foi positivo: essa transformação, como uma estratégia de resistência, ampliou minha sensibilidade, me ofereceu outros assuntos, me trouxe ânimo para aprofundar algumas pesquisas poéticas, apurou meu olhar. Aprendi a gostar um pouco mais de Brasília. Assumi Ceilândia e Sol Nascente, regiões administrativas do Distrito Federal às margens da capital do Brasil, como terras que me acolheram e me formaram como ser social e cultural (Ceilândia também acolheu meus avós maternos, migrantes de Tianguá, Ceará, no início dos anos 1980). Aprendi a admirar o Cerrado e a valentia da vida que ele demonstra. Olhei as vidas vegetais que brotam do concreto. À revelia dele, a brotação segue. Esse fenômeno, constituído de semelhantes porções de força e delicadeza, inspiram a série Ginófitas, junto à aliança ancestral, viva e presente, entre mulheres e plantas.
Produzir à margem, para mim (agora com calma e com o pensamento organizado), é perceber a ciclicidade da vida, simultânea à sobrevivência, e fazer dela um instrumento de ressignificações, a despeito das adversidades de ordem social e material. Também percebo que, nesse círculo, se faz necessário firmar alianças (com humanos e não-humanos) e se fazer elo da corrente da vida: receber, respeitar, celebrar e transmitir. O ponto de parada-reflexão me mostrou o quanto meu trabalho testemunha minha vida, mais do que minha consciência alcançava. Como eu aposto que acontece com mais artistas, mundo afora e margens adentro.
Vista da exposição Bença, 2023. Foto: Débora Passos
Vista da exposição Bença, 2023. Foto: Débora Passos
Notas
- 1. Artistas participantes: Dalton Paula, Débora Passos, Lua Cavalcante. Curadoria: Gisele Lima e Pé Vermelho. Temporada de exposições Contra-êxodo: estratégias de inserções. Pé Vermelho – Espaço Contemporâneo. Em Planaltina, Distrito Federal, Brasil.
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Referencias
Piorski, G. (2016). Brinquedos do chão: A natureza, o imaginário e o brincar. São Paulo: Peirópolis.