Três gestos a partir do pensamento de Ailton Krenak

Marina Fossa de Camargo

Só é necessário pensar em “adiar o fim do mundo”¹ porque temos diversos problemas que atravessam a experiência humana neste planeta. O modo de vida exploratório que é experimentado e perpetuado traz consequências objetivas catastróficas, como a evidente emergência climática. Mudanças são necessárias para que possamos usufruir melhor de nossa estadia terrena, e sermos também bons hóspedes neste solo.

Recorrer a representantes de sociedades menos impregnadas da cultura ocidental para aprender com suas vivências parece ser uma estratégia relevante e frutífera, e Ailton Krenak nos presenteia com uma vastidão de reflexões a respeito do mundo, da vida e dos sentidos de existir. Ailton Krenak é um pensador, líder indígena, ambientalista, escritor, multiartista e ativista brasileiro, pertencente ao povo krenak, originário do Vale do Rio Doce (MG). É hoje uma das vozes mais importantes do pensamento ambiental e cosmopolítico no Brasil e no mundo.

Para que o presente texto não seja tomado de maneira equivocada, tenhamos em mente que não cabe a qualquer outro povo apresentar soluções para os problemas do povo da mercadoria. Podemos enxergar em Krenak um mestre e um sábio, mas não o devemos tomar pelo que são um mestre e um sábio para a tradição ocidental. Especialmente, não devemos colocar em seus ombros o peso de ser um mensageiro de soluções definitivas para os problemas de diversas gerações que nos sucederam em uma cultura exploratória².

Assim, esse texto não será útil para produzir normativas. Portanto, não teremos propostas de resoluções para as questões angustiantes do presente. O que não significa ausência de referências e convites capazes de ampliar nosso repertório acerca de modos de habitar o mundo.

Trago ideias de Ailton Krenak que aparecem em contextos diversos e as organizo em três partes distintas, buscando interpretar alguns conceitos, e coletar do pensamento de nosso filósofo indígena alguns convites à ação. Nomeei as partes desse texto de gestos. Gesto, em consonância com o pensamento krenak acerca da arte, evoca ações voluntárias direcionadas à perenidade e suscetíveis à efemeridade, ou seja, atitudes tomadas com o objetivo de durar, e que ainda assim são submetidas à inevitabilidade do encerramento de ciclos. Um gesto depende de um corpo animado que se move. Gestos são mais que dados ou premissas. Algo se cria em nós, nos movimenta, afeta, modifica. Nosso idioma ainda permite um outro sentido à palavra gesto, no presente do indicativo, conjugado em primeira pessoa: eu gesto. Portanto, esse texto é um convite à gestação. Quero dizer, um convite a permitir ter o corpo habitado e animado.

As concepções filosóficas do cânone ocidental aqui utilizadas por mim — ontologia, ética e estética — auxiliam a dar um contorno de significações conhecidas e fazer pontes, mas não traduzem ou explicam o saber compartilhado por Ailton Krenak em sua totalidade. É necessário gestar os gestos. Busquei com a escrita um ato criativo com as palavras fecundas de Ailton, nas quais vejo movimento e convite ao movimento. Mas trata-se de um convite que não segue o roteiro cavalheiresco de escolher um par, estender a mão, propor os passos para que o outro corresponda. É um convite de outra ordem, no qual as células do corpo entram em consonância com a vibração que a própria vida de Ailton Krenak produz, e por um fenômeno físico, seu corpo afeta outro, soa junto, vibra junto e o outro, enfim, dança — sem obedecer a um condutor, sem coreografia, em constante e mútua criação.

O primeiro gesto é apagar as luzes. Nele apresento o que identifico como reflexões ontológicas basilares do pensamento de Ailton Krenak, as quais tratam das ideias de natureza e humanidade, sem realizar distinção entre o que é humano e não-humano. Acompanhando Krenak, somos convidados a incorporar a escuridão antes ofuscada pelas luzes dos iluministas e a olhar novamente para nossa espécie e para o mundo.

O segundo gesto é preencher-se de terra, onde são inseridos elementos os quais reconheço como éticos: veremos como as noções de herança ancestral, subjetividades selvagens e a perspectiva dada por Krenak à inocência nos convidam a habitar o mundo sem tratar a Terra como um recurso a ser explorado, mas como parte constituinte da vida. Criar a vida no caminho é o terceiro e último gesto, o qual classifico como estético3, não por se dedicar à ideia de belo como problema, mas por dedicar-se à criação, às formas artísticas de expressão, extrapolando, contudo, o campo das artes, alcançando a produção da vida.

O conjunto de palavras e frases abaixo é uma espécie de notação coreográfica dos três gestos colhidos na dança das palavras de Ailton Krenak, como um convite para um baile cósmico — de humanoides, animais, rios, montanhas, bactérias, corpos celestes — no qual só se pode dançar sem sapatos e com a cabeça na terra⁴. Apagar as luzes, um gesto ontológico

Krenak (2020a) explica que essa configuração do mundo a qual comporta a humanidade vivendo nele é apenas uma das possibilidades de paisagem do planeta, e que a importância da espécie humana não está em qualquer grau acima das demais espécies ou dos biomas (p.58). Sob tal perspectiva, “adiar o fim do mundo” trata de orquestrar ações que permitam a existência da raça humana por mais tempo na Terra, de modo que essa permanência seja proveitosa para o mundo. Cabe à nossa espécie interromper a exploração das formas de vida e de existência, pois ela é a única que faz do convívio um modo de exploração desenfreada.

Contudo, é necessário que fique compreendido que não são todas as nações, povos e organizações humanas — todos os sujeitos reconhecidos como pertencentes à espécie humana — que reproduzem tal forma exploratória de existência. Nem todas as culturas, nem todas as naturezas⁵.

Concordando com Davi Kopenawa, Krenak (2022b, p.61) reitera que “o Ocidente é a civilização da mercadoria”. Refere-se, portanto, ao povo herdeiro da cultura colonial e àqueles que se inserem no sistema capitalista, tanto em sua lógica econômica de priorização do lucro, quanto em sua lógica subjetiva, sustentada pelos ideais exploratórios em nome de vantagens, que acaba por objetificar e mercantilizar tudo o que for possível. Mesmo que esse processo não envolva o ganho financeiro direto, os “acumuladores de mundos⁶” , seguem “invadindo subjetividades a ponto de afetar toda a criação intelectual do mundo” (Krenak, 2022b, p.60).

Em Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak declara: “Precisamos ser críticos a essa ideia plasmada de humanidade homogênea na qual há muito tempo o consumo tomou o lugar daquilo que antes era cidadania” (Krenak, 2020a, p.24). Faz-se necessário, portanto, ressaltar que ao falar de raça humana, Krenak não fala de “humanidade”, pois são conceitos distintos. Diferentemente de filósofos de herança humanista, o pensador indígena brasileiro sustenta que a ideia de humanidade não seria um meio de aproximar a dignidade da vida, mas de afastá-la, pois a “humanidade” seria uma abstração perigosa e alienadora, a qual tenta apartar o ser humano das dinâmicas e leis da natureza, colocando a espécie humana virtualmente acima das demais formas de vida, causando e fundamentando a destruição do ecossistema global7 (Krenak, 2020a p.16, 17, 47).

A metáfora do “liquidificador chamado humanidade”, da qual lança mão Krenak (2020a), ilustra sua concepção: essa humanidade- liquidificador, devido ao desenvolvimento científico e avanços tecnológicos realizados de modo acrítico, arranca gente do campo e da floresta, de seus coletivos, para viver nas favelas e periferias urbanas, longe de seus lugares de origem⁸, para nenhum outro destino que não seja enlouquecer — caso estejam desconectados de sua memória ancestral (p.14).

Para este pensador, a crescente exploração da floresta destrói a base de vida dos indígenas, que, sem terem para onde ir para exercerem seu sistema de vida, são engolidos pela sociedade dos brancos, na sua classe mais baixa e empobrecida (Krenak, 2023, p.27).

Essa diferença radical na relação com a natureza, que abriga de um lado a exigência de exploração exaustiva, e de outro (ou outros) uma vida integrada com biomas e as formas de existência não-humanas, já se mostra na organização da linguagem. A palavra natureza, que expressa a ideia de natureza com a qual estamos acostumados na cultura ocidental de herança europeia, não existe na língua krenak, por exemplo. Ailton Krenak explica que, para se referir a isso que é chamado “natureza” (compreendendo os reinos vegetal e animal, bem como o solo, as montanhas, as águas, a atmosfera e o cosmos), na língua krenak seria usado um termo correspondente a “eu mesmo” (Krenak, 2024b).

Krenak conta que essa separação entre a noção de si e a noção de natureza, que servem à mercantilização da vida, difere de sua percepção:

(…) fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza (Krenak, 2020a, p.16, 17). Ainda a respeito do enlace existencial entre pessoas e outras formas de existência, em Futuro ancestral, Krenak narra a vivência de experimentar essas outras formas, como aquela propiciada pelo convívio com Watu, o Rio Doce:

À noite, suas águas correm velozes e rumorosas, o sussurro delas desce pelas pedras e forma corredeiras que fazem música e, nessa hora, a pedra e a água nos implicam de maneira tão maravilhosa que nos permitem conjugar o nós: nós-rio, nós-montanhas, nós- terra. Nos sentimos tão profundamente imersos nesses seres que nos permitimos sair de nossos corpos, dessa mesmice da antropomorfia, e experimentar outras formas de existir. Por exemplo, ser água e viver essa incrível potência que ela tem de tomar diferentes caminhos (Krenak, 2022a, p.14).

Portanto, a ideia de natureza como recurso a ser explorado pelo humano, a qual é assumida pela lógica da indústria e do mercado, não se adequa à sua concepção de mundo. Quer dizer, a separação realizada por meio dos conceitos de humanidade e natureza estaria intrinsecamente ligada à manutenção do projeto de exaustão da natureza, pois se fundamenta numa crença equivocada de que seres humanos seriam capazes de exaurir o que é chamado indiscriminadamente de “recursos naturais” sem que isso coloque em risco a própria existência da espécie humana, e sem reconhecer a autonomia de entes como o rio, as montanhas, as florestas, acreditando que há uma cisão entre a experiência humana e o “organismo vivo” que seria o planeta.

Essa cisão, ora também chamada de “especismo humano”, para Ailton Krenak, pode ser entendida como o grande obstáculo para que a espécie humana possa agir de modo a favorecer a própria existência, de maneira mais digna e por mais tempo, no planeta. Apegado à ideia das luzes, da racionalidade moderna, o homo sapiens (ou qualquer outra denominação que se dê à espécie humana contemporânea, como homo economicus), estaria exagerando no uso de suas “luzes”, de seu pensamento, e perdendo justamente aquilo que busca: “O especismo do humano é que é o problema, porque o humano acha que ele é a única coisa inteligente no planeta, então ele ignora todas as outras iluminações. Ele quer carregar um farol na mão procurando vaga-lumes dentro da floresta” (Krenak, 2024a).

Preencher-se de terra, um gesto ético

Em Lugares de origem, quando indagado sobre como não somente adiar o fim do mundo, mas pensar numa transformação radical do mundo em que vivemos, Krenak diz que estamos em um “mundo em convulsão”, mundo este que, quer gostemos ou não, é resultado daquilo que as gerações que nos precederam produziram, com seu tempo, sua sabedoria, sua energia e inventividade — e que nos foi dado. Na sequência alerta como a insatisfação com o mundo tal como se apresenta reproduziria uma mentalidade bélica. A ideia de uma “transformação radical” deste mundo reproduziria a mesma mentalidade que produziu guerras mundiais, e que, portanto, apegar- se a essa ideia para uma estratégia de mudança não nos levaria ao resultado satisfatório que se imagina.

Sem negar que uma transformação radical seria possível, ou mesmo benéfica para as demais espécies do planeta, Krenak sublinha que para que ela ocorra, o caminho mais simples seria a erradicação da raça humana (Krenak, 2022, p.77-79).

A ideia de uma transformação ampla e radical do mundo ou da cultura não é um objetivo, uma proposta, no pensamento compartilhado por Ailton Krenak. Com base na cosmopercepção e nas ideias compartilhadas por Krenak, podemos conceber uma resistência selvagem. Quero dizer, exercer forças contrárias àquelas opressoras, de modo a sustentar a existência de indivíduos, povos e modos de existir, em meio a situações hostis, persistindo na manifestação da diferença, que pode então ser, mais que aceita, celebrada. Seria uma postura de firmeza a fim de amparar, por meio da aceitação da diferença, a permanência, nesse mundo presente, de subjetividades divergentes à subjetividade mercantilizada da “civilização da mercadoria” (Krenak, 2022b, p. 60, 61): subjetividades capazes de “pensamento selvagem⁹”.

Tais subjetividades estão presentes nos povos originários que historicamente resistem às tentativas de aniquilação frente ao avassalador sistema de mercantilização da vida, das existências, que assola a maior parte da população do planeta. Não somente os povos originários indígenas seriam capazes de imprimir alternativas de expressão subjetiva no planeta, mas outros povos igualmente “filhotes da terra”, lidos como “sub-humanos” na cultura opressora vigente.

Vejamos:

Enquanto isso, a humanidade vai sendo descolada de uma maneira tão absoluta desse organismo que é a terra. Os únicos núcleos que ainda consideram que precisam ficar agarrados nessa terra são aqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do planeta, nas margens dos rios, nas beiras dos oceanos, na África, na Ásia ou na América Latina. São caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes — a sub-humanidade. Porque tem uma humanidade, vamos dizer, bacana. E tem uma camada mais bruta, rústica, orgânica, uma sub-humanidade, uma gente que fica agarrada na terra. Parece que eles querem comer terra, mamar na terra, dormir deitados sobre a terra, envoltos na terra.

A organicidade dessa gente é uma coisa que incomoda, tanto que as corporações têm criado cada vez mais mecanismos para separar esses filhotes da terra de sua mãe. “Vamos separar esse negócio aí, gente e terra, essa bagunça. É melhor colocar um trator, um extrator na terra. Gente não, gente é uma confusão. E principalmente gente que não está treinada para dominar esse recurso natural que é a terra.” (Krenak, 2020a, p. 21-22).

Essa habilidade de não tratar a terra como recurso, e por isso não agir de maneira predatória, é uma das características que diferenciam essas maneiras de ler e interpretar o mundo, responsáveis por formas “selvagens” de existência que coabitam o planeta, daquela mentalidade mercadológica dominante.

A negativa frente à radicalidade na mudança do mundo, quando dita por outros pensadores, pode parecer uma inclinação confortável de um privilegiado, porém ganha outra perspectiva à medida em que Ailton Krenak explica a razão pela qual a saída da radicalidade não seria viável para os seres humanos. Aqui, a relação da ancestralidade com as formas de vida que agem atualmente sobre o mundo é fundamental para pensar a questão. Yussef Campos reconhece que, no pensamento de Krenak, o passado segue vivo no presente:

As camadas temporais, a linearidade do tempo, a divisão entre passado, presente e futuro. Tudo isso é capaz de perceber a episteme trazida por Ailton em suas falas. A presença inconteste do passado no presente é inexorável. Não só pelas formas não indígenas, como também pela patrimonialização de bens culturais ou o uso da História e da memória para jogar luz em fatos e sujeitos pretéritos. Mas pela reivindicação da ancestralidade como argumento de autoridade, de transmissão de conhecimento e de questionamento da imposição dos conceitos eurocêntricos sobre os povos originários (Campos, 2022, p. 94-95).

A ancestralidade, portanto, não é uma ideia que remete a algo que passou e ficou para trás, mas algo que está agindo, desde o passado, no presente: “estamos em todos os lugares, pois em tudo estão nossos ancestrais, os rios-montanhas, e compartilho com vocês a riqueza incontida que é viver esses presentes” (Krenak, 2022a p.12).

Com isso, podemos concluir que a mentalidade de uma mudança radical, por vezes com apelo a um hipotético meteoro que daria fim à humanidade, por exemplo, seria uma manifestação de desconexão com as heranças ancestrais. Em outros termos: uma mudança radical implicaria a vontade e possibilidade de mudar desde as raízes, numa busca de romper com o que e quem veio antes — e nos estrutura. Para realizar alguma espécie de transformação, seria mais frutífero comprometer-se com uma aliança radical com o mundo.

Conforme afirma Krenak (2024b), “nós não temos como recuperar o estrago que os séculos XIX, XX, XXI está causando nesse universo da linguagem, da educação, das relações interpessoais”. E complementa: Aquela parte da humanidade que ainda não descolou do chão, essa parte viva da humanidade, ela pode produzir mais sentidos de vida, criar um efeito revitalizante no organismo doente. Mas seria uma aventura sem fim imaginar que nós vamos entrar nesse organismo necrosado e revitalizar ele no sentido da vida no planeta, na Terra, porque nós vivemos um momento bélico (Krenak, 2024b).

Diante da leitura de que o planeta seria hoje um organismo necrosado, e de como enxerga o modo de existência da maioria dos indivíduos que habitam a Terra neste tempo presente, Ailton Krenak é categórico: “O [homo] sapiens é um serial killer e eu não quero salvar ele” (Krenak, 2024b). Porém, diferentemente do apelo ao meteoro, essa posição de Krenak não é uma fala que deva ser compreendida como uma declaração de um misantropo — especialmente porque não se trata de aniquilar todas as formas de existência humana —, mas que revela a indisposição em buscar salvar uma forma de existir exploratória, acumuladora, artificialmente hierárquica e desconectada do mundo. Vale lembrar que a tradução imediata de um homo sapiens em um representante da humanidade, e o reconhecimento de todas as pessoas como pertencentes a esse grupo, é parte de uma das muitas culturas e/ou naturezas que coabitam nosso planeta. A saber: a do povo da mercadoria.

Indivíduos e grupos de subjetividades selvagens fazem resistência frente à homogeneização do modo de viver no mundo, insistindo em cultivar a diferença e a expansão das próprias subjetividades, negando tanto a categoria de bárbaros quanto a de civilizados, com criatividade e poesia. Krenak explica:

Cantar, dançar e viver a experiência mágica de suspender o céu é comum em muitas tradições. Suspender o céu é ampliar o nosso horizonte; não o horizonte prospectivo, mas um existencial. É enriquecer as nossas subjetividades, que é a matéria que este tempo que nós vivemos quer consumir. Se existe uma ânsia por consumir a natureza, existe uma ânsia por consumir subjetividades — as nossas subjetividades. Então vamos vivê-las com a liberdade que formos capazes de inventar, não botar ela no mercado. Já que a natureza está sendo assaltada de uma maneira tão indefensável, vamos, pelo menos, ser capazes de manter nossas subjetividades, nossas visões, nossas poéticas sobre a existência. Definitivamente que não somos iguais, e é maravilhoso saber que cada um de nós que está aqui é diferente do outro, como constelações. O fato de podermos compartilhar esse espaço, de estarmos juntos viajando não significa que somos iguais; significa exatamente que somos capazes de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças, que deveriam guiar o nosso roteiro de vida. Ter diversidade, não isso de uma humanidade com o mesmo protocolo. Porque isso até agora foi só uma maneira de homogeneizar e tirar nossa alegria de estar vivos (Krenak, 2020a p.32-33).

Vemos, portanto, que uma das questões fundamentais que sustentam a cultura de herança colonial, para Ailton Krenak, seria a incapacidade de conviver com a diferença. Junto dessa característica, rememoremos, estaria a desconexão com os demais seres, fundamentada na ideia de uma humanidade apartada de algo chamado de natureza, e a crença de superioridade da primeira em relação à segunda. A isso, se somam o medo de escassez e a desconexão com a terra, o que sustentaria a competitividade e antipatia entre os próprios humanos, fazendo das experiências tanto de solidão, quanto de convívio, algo desagradável. Embora a crítica até aqui esteja direcionada à cultura do povo da mercadoria, gostaria de sublinhar que Ailton Krenak não ignora a capacidade de outros povos e etnias que não os colonialistas capitalistas de manifestar emoções intensas e desejos destrutivos.

No entanto compreende que eles resolvam a situação de modo a não se deixarem corromper pelos impulsos destrutivos, como vemos:

Não que [os povos originários] tenham resolvido o que fazer com essa dualidade de amor e ódio, mas aprenderam a passar na peneira e não guardar veneno no coração. Decerto que eles também tiveram medo, raiva, desejo de vingança, mas eles filtraram isso e não deixaram adoecer o coração (Krenak, 2024a).

Não está descrito esse processo que auxilia a não guardar veneno no coração, o que leva a indagar: acaso existe um caminho único, ou cada etnia, coletivo ou indivíduo aprende a fazer isso a seu modo, o que implicaria diversos modos de fazê-lo? Independentemente do processo a ser realizado, o cultivo da inocência aparece como um fator relevante aos cuidados do coração.

Em oposição a uma “fúria metropolitana”, Ailton Krenak comenta o fato de os povos da floresta cultivarem o coração como quem cultiva um jardim. E com isso serem capazes de expressar a alegria de encontrar outros humanos, pois, entre outras características, vivem sem compactuar com a ideia de propriedade sobre a terra, e por isso não têm medo do roubo. Recebendo alimento da terra como a criança recebe de sua mãe, também não são assombrados pelo medo da escassez. Esses dois medos — venenos para o coração — são capazes de separar a nossa experiência da alegria de dividir o planeta com outros seres. Em Ideias para adiar o fim do mundo podemos ler:

Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim (Krenak, 2020a, p.26, 27).

A “inocência”, ao contrário de uma existência pautada em culpas, sustentaria a possibilidade de gozar sem nenhuma outra finalidade (Krenak, 2020a p.65). Por qual razão não tirar proveitos dos nossos sentidos, sem a necessidade eufórica de acumular experiências sensoriais?

Criar a vida no caminho, um gesto estético

Ailton Krenak diz10 que na maioria das línguas indígenas brasileiras não existe palavra correspondente à ideia de “arte”, e rememora a mostra Dja Guatá Porã realizada em 2017 no Museu de Arte do Rio, a qual se debruçava na pergunta “O que é arte?”. A respeito da mostra, comenta:

(…) a maioria das pessoas indígenas que respondeu essa pergunta dizia que no seu idioma, na sua cosmovisão, na sua visão das coisas, não existia uma palavra para designar isso que o Ocidente chama de arte. Que na verdade foi a Europa que decidiu que tem um campo do fazer que é chamado de arte. Antes da Europa decidir que tem alguma coisa que é arte, outras culturas, outros povos, não tinham ainda feito essa separação (Krenak, 2025a).

O fato de não haver a separação da arte em relação aos demais campos do fazer, no entanto, não significa a ausência de criações passíveis de serem identificadas, por povos que nomeiam algo como artístico, como expressões artísticas. Do outro lado, para os indígenas que, tantas vezes por falta de escolha, antropofagizam a cultura do povo da mercadoria, foi possível acessar a dimensão artística compreendendo sua função e inserindo-se com seu conhecimento e criações no cenário das artes. O aparecimento e reconhecimento de artistas indígenas reconhecidos na contemporaneidade é fruto dessa comunicação entre a cultura ocidentalizada e cosmopercepções de povos originários, após conseguirem “buscar um sentido, uma expressão na sua própria cultura, na sua própria tradição, que dava conta de nomear essa experiência sem considerar que era um campo exclusivo da criação” (Krenak, 2025a). Chama a atenção a separação realizada pelo povo da mercadoria a algo que, na cosmovisão compartilhada por Krenak, manifesta-se em união ou comunhão com outros campos da vida.

Ailton conta que a palavra capaz de representar a ideia de arte concebida pelo Ocidente em seu próprio povo é expressa pela palavra Hinta, a mesma utilizada para designar “gesto”. E explica: A mesma palavra para gesto é a palavra para isso que eles chamam de arte. E eu levei para lá [para a mostra Dja Guatá Porã] essa expressão, que é Hinta. Gesto. E, sabe aquelas inscrições rupestres, essas marcas que tem nas pedras? Os antigos, os ancestrais, quando eles faziam uma incisão daquelas, quando eles faziam uma impressão daquela na pedra, eles sabiam que aquilo ia durar. Então eles chamavam aquele ato, aquela coisa, de “gesto”, que, com o tempo, pode ser chamado de arte, porque coincide com o que a arte faz. Uma tela, um desenho, uma escultura (Krenak, 2025a).

Outro aspecto para o qual Ailton Krenak chama a atenção em relação à arte indígena é a relevância do percurso, relacionando-se, inclusive, com essa trajetória narrada por ele de aproximação com a ideia de um campo chamado de arte. Inicialmente, reflete acerca dessa distinção entre o fazer das criações artísticas e a nomeação de tais práticas e produções:

Então, quem sabe, nas outras culturas, a aproximação com a ideia de arte tenha passado pela mesma viagem. De repente, nem os gregos chamavam de arte as primeiras expressões do que veio a ser a arte grega. Eles nomearam aquilo no caminho. Será que tudo que existe não é nomeado no caminho? Ou será que as coisas precisam de um pressuposto antes para depois existir. Não é? Só na tradição, digamos assim, que a Bíblia transmite, é que alguma coisa surge de um anúncio, né? “Fez-se luz”, aí criou o mundo e tal. Uma palavra criou, uma palavra criadora. Parece que a arte não é isso. A arte é no caminho, é no percurso (Krenak, 2025a). Além desse percurso entre o fazer e o nomear, situar a arte “no caminho” oferece outro desdobramento, ou auxilia na compreensão de mais uma característica relevante em sua visão: a presença de criações que são transformadas em outras coisas, doadas, descartadas, mas que não são guardadas. A respeito do hábito de guardar coisas, Ailton Krenak é enfático: “Nenhuma cultura indígena, nenhuma, eu posso te afirmar, guarda coisas. Coisas não são para ser guardadas. As coisas são para rodar. Circular o mundo” (Krenak, 2025a). E sua explicação segue:

E a ideia de guardar uma coisa, ela tá confrontada com o entendimento de que tudo é efêmero. Arquitetura indígena é efêmera. Você não faz uma casa para durar sua vida inteira. Ao longo da sua vida, você vai fazer e desfazer várias casas. Fazer, desfazer, fazer e desfazer. Essa ideia de uma estrutura de casa que dura por gerações, isso é uma coisa tipicamente europeia. Por isso que eles fazem casas de pedra. Talvez seja por isso que a ideia de arte não coincide muito com o pensamento, com a ideia indígena. Porque arte tem a ver com comércio. Não tem a ver com a permanência. Você faz uma coisa dessas para ela continuar existindo, com perenidade (Krenak, 2025a).

Efemeridade e perenidade coexistem. Ao mesmo tempo em que há criações que propositadamente são feitas para durar — são gestos que marcam o mundo na materialidade como pinturas rupestres —, outras são desfeitas, desmanchadas, apagadas e recolocadas no ciclo para servirem a outras criações, composições. Há um movimento contínuo de composições e decomposições, em que o decompor não recebe juízo negativo ou hierarquicamente inferior.

A unidade entre os agentes e materiais parece oferecer uma espécie de interação, tanto no processo criativo quanto no de fruição estética — se pudermos chamar assim. Ao passo que, numa cultura de separação a conservação de objetos faz sentido, pois se retira algo de uma fonte primária (a argila, por exemplo) para dar-lhe sentido estético impregnado de uma expressão pessoal individual (uma escultura), numa sociedade que tem por pressuposto a unidade, não é de se admirar a facilidade em devolver materiais, circular objetos, se a noção de propriedade não dita os valores atrelados também ao campo das artes.

Com isso não é difícil compreender que a arte indígena realizada em suas múltiplas linguagens, sob a perspectiva mais recente de Ailton Krenak12, não deve ser confundida com patrimônio, particularmente em virtude da relação entre patrimônio e comércio destacada pelo filósofo indígena.

E ao longo do tempo isso foi se transformando numa coisa de patrimônio. Ganhou esse atributo, de ser um patrimônio. A cultura indígena não se encaixa nessas coisas, não se encaixa no pensamento patrimonialista. Nem na cultura, nem na cultura material, nem na cultura chamada simbólica. Não tem essa pauta, não. Você não vai guardar nada. (…) não tem sentido preservar essas coisas que você cria. Seja uma casa, um arco, uma flecha. Quando termina uma festa, por exemplo, com o Kuarup, todos aqueles adornos, tudo aquilo é descartado, é transformado em outra coisa, é trocado, é doado, mas não é guardado. Ninguém vai guardar o cocar do ano passado para usar no ano que vem (Krenak, 2025a).

Se considerarmos aqui que patrimônio refere-se, ao menos parcialmente, a um bem com valor econômico, faz sentido negar esse status no contexto da arte indígena, ao olharmos outras partes de seu discurso crítico à cultura de mercado. Desatar com a lógica e os valores da mercadoria, no entanto, não isenta a possibilidade de atrelar valor, apreço ou, em suas palavras, sentido, como expressa Krenak: “O que é insignificante para mim pode ter um significado enorme para meu primo, minha tia, minha avó. Não existe nada que não tenha sentido” (Krenak, n/d [2021]).

Mais uma vez, a voz de Krenak convoca a ampliar o espaço para vivermos o mundo no presente. Sem isolar a arte para que ela ocupe um campo separado dos demais exercícios de criação em sua compreensão de mundo, a atividade criativa não se restringe a poucos indivíduos especializados nem a ocasiões específicas para que se cumpra uma função preestabelecida. Desidentificada da lógica do valor econômico, a criação — em sua dupla significação, como processo que ocorre no caminho, e também as obras resultantes de tal processo —, seria parte de nossa vida humana. Criar a vida em suas diversas dimensões é parte de nossa dança, coletiva e individual, pois “(…) a produção da vida, ela é uma competência de cada um de nós, é a capacidade que todos nós temos” (Krenak, 2025b).